O convite é se colocar no lugar do outro

Minha pretensão é transcrever o estado de depressão através de minhas experiências, mas não tecnicamente, julgo que muito se fala sobre o assunto, mas pouco se inverte de papel com as pessoas que sofrem deste transtorno emocional; o preconceito não nos deixa entrar em contato com esta DOR para ampliar nossa consciência sobre esta devastadora do AMOR.
Sim do AMOR que possibilita o afeto (experiência de troca receber e dar), ter uma visão unilateral não viabiliza o olhar para o outro, precisamos entender que colocar-se no lugar do outro por alguns segundos, sentir e olhar como o outro não é uma tarefa fácil; pode ser assustadora. Neste contexto captar o mundo subjetivo sem descartar as verdades e ater-se a dor sofrida na alma de uma pessoa em depressão se faz necessário para que possamos realmente ajuda-la com AMOR, e resgatarmos o humano que há dentro de nós.

Não me interessa aqui os dados estatísticos que torna esta DOR percebida, mas sim a percepção visceral que afeta a vida que de uma maneira brutal está sendo interrompida na sua essência no seu dia a dia como um morrer instantâneo. A pessoa com Depressão acaba esquecida e banida do contexto social no momento em que ela mais precisa de AMOR e acolhimento. Aliviar ou buscar a cura da depressão não é trazer felicidade, mas sim resgatar a possibilidade de viver e nascer novamente para as possibilidades existentes.

O sentido da vida é o AMOR, sem ele, a vida é desesperadora, teremos dificuldades de dar e receber afeto, e sem afeto nos tornamos um ser sem personalidade, sem vontade própria, com atuações instintivas, privado de vontade própria.

O amor neste contexto é essencial, embora não cure o estado depressivo, pode ser tranquilizador para mente e protege de seu funcionamento indesejável. Neste contexto pessoas próximas ou amigos com discernimento da gravidade destes sintomas precisam apenas amar incondicionalmente este SER em estado de insignificância e dor. Sim, a depressão é uma dualidade entre NASCIMENTO e MORTE, hora ela se instala como um hospedeiro que suga todas as energias da pessoa a ponto de aniquilá-la constantemente, deixando um corpo devastado em estado de prostração (debilitado física e psiquicamente); hora ela se esvai deixando marcas da vivência, mas dando sinal de um novo nascimento para a vida.

Ledo engano é achar que a depressão é um jorrar de lágrimas, pelo contrário ela é pior, pois é uma dor que não tem sensibilidade. Pois esta foi se perdendo através do tempo, sendo desgastada pelos seus empregos, de se preocuparem com o cumprir as expectativas irreais, de viver num mundo doentio e sistematicaticamente devastador de alma e de seres humanos. E então com a dicotomia do Corpo e Mente, às vezes se justifica a Depressão isolada da vivência do ser em sociedade, atribuindo esta cisão entre corpo e alma a “neuroquímica” e então as pessoas tem um alívio quando o médico diz que a depressão é física, tornando assim o sofrimento aleatório, justificando e isentando toda uma contextualidade do ser em sociedade e então há uma liberação de culpas para ambos: SER e Sociedade. Neste contexto é importante lembrar que precisamos fortalecer este SER ele precisa ser resgatado em si e em sua essência é preciso trazer de volta o que se é, e se diferenciar dos iguais.

Saliento aqui a importância do AUTOCONHECIMENTO para que a química não tome conta de nossa essência e não nos soldem na sistemática da magia das indústrias farmacológicas, precisamos entender que podemos tentar reverter esta mudança neuroquímica; as realidades interna e externa existem num contínuo e são complexas e singulares e, só o AMOR, é capaz de acolher esta transformação no resgate da personalidade de cada indivíduo.

Nós patologizamos o curável e o que pode ser muitas vezes revertido, passa a ser tratado como doença, mesmo que previamente tratado como parte da personalidade ou estado de espírito.

Não nos deixemos ser aniquilados pelo sistema, precisamos ter coragem de transcender os iguais.

Valéria Fidélis 

CRP. 06/45.571-5

Psicóloga, Pedagoga, Psicodramatista e especialista em Psicossomática